terça-feira, abril 12, 2011

BobbleHeads


Comboio lotado. Do topo, com o metal agradavelmente frio a vincar-me as costas, observo as cabecinhas oscilantes dos corpos que, hirtos, se espremem. Uns vão de olhos fechados, outros têm-nos abertos, tão cheios de vida como se os não tivessem. Algumas bocas roem unhas, outras escarram impropérios contra a falta de respeito dos outros por si, sem se darem conta da sua pelos outros. E eu, igual a eles, observo-os do topo. O comboio contorce-se numa curva apertada. Os corpos não se movem, não têm como, mas as cabeças seguem no embalo e balançam sobre os pescoços igualmente erectos. Mais um solavanco, oscilam de novo as cabecinhas, como se coreografadas. E eu, que do topo observo, vejo Bobbleheads lá em baixo, tomando o lugar daquilo que eu havia tido como pessoas. Ou talvez nunca tenham sido pessoas, ali, somente figuras plásticas meticulosamente disfarçadas. Sim, talvez. Sempre achei piada a estes bonecos, tenho um ataque de riso e eles dobram, finalmente, os pescoços e, sempre bamboleando a cabecinha, observam-me com os olhinhos negros minuciosamente desenhados na carapaça oca.


Imagem:"Remedios Varo (wearing a mask)", Leonora Carrington e Kati Horna.

2 comentários:

Carla Ramos disse...

Amo desalmadamente o teu blog onde mostras a beleza demente que vai nessa tua cabecinha, mas amo ainda mais o original porque com esse posso falar e devanear e criar novas demências que por serem nossas são ainda mais belas.

Lia disse...

Adoro os teus ataques de riso :D
está excelente *.*