Sobre a minha cabeça,
Uma bola paira.
Olho-a.
Roda sobre si mesma
E sobre mim,
Roda e enleia o
Raciocínio.
Quebra-se a razão.
À machadada, rasgo a bola
E ela sangra.
Sinto a seiva quente.
Abro a boca e bebo
O sangue que é, afinal,
O meu sangue.
Olho o corte em meu
Coração que está de fora
E mergulho na carne
As minhas mãos.
Sinto o interior quente,
Viscoso e elástico.
Palpo as concavidades,
Rasgo paredes com as unhas.
Nem preciso de me esforçar,
Elas desfazem-se, podres,
Assim que as toco.
Sem dificuldade,
Descasco o coração
E paira sobre mim, agora,
Apenas o buraco negro
Que suga minha aura,
Nebulosa e tabacal.
Imagem: René Magritte, Le double secret, 1927, óleo sobre tela.
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