Caminha, pesadamente,
No limbo da consciência,
Um desejo já doente
Por ser desejo somente,
Agrilhoado pela impotência
De fazer dele mais que latente.
Revolve-se e esbraceja,
Qual animal enclausurado.
Perdem-se as forças, já só rasteja,
Na fragosidade que o caleja.
Pobre desejo já só deseja
Poder aos céus ser elevado.
“Oh alma misericordiosa,
Minha mãe e meu tormento,
Escutai meu apelo: Odiosa
É minha Sina, mãe bondosa,
Deixai-me sucumbir ao sofrimento!”
Sussurra o desejo, espirrando
Coágulos de sangue, enquanto chora
E, viscoso, o sangue vai pingando,
Lentamente, da alma fora.
Ergue-se a mão imaterial,
Apenas de alma impregnada,
Desanca, sem dó, o animal
Crava-lhe nos membros um punhal,
Impede-o de continuar sua jornada.
Não pode mais fugir, o inexistente
Desejo que, tão pouco, de vez, morre.
Vive, sem o fazer, sempre doente,
Morre, sem morrer, afogado na corrente
Ininterrupta de vida que em meu corpo corre.
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