terça-feira, novembro 09, 2010
Ensaio sobre a (Não) Existência
Reconheces o espaço que te rodeia, reconheces as faces que te sorriem, sabes o nome dos objectos, consegues descrevê-los, sabes dar nome aos seus traços, identificar as suas cores, sabes para que servem e, proeza extraordinária, consegues manter presente a sombra da sua imagem se, cerrando as pálpebras, os teus olhos não conseguirem ver mais que a ausência de luz do interior da tua pele. Esquece, agora, o que te rodeia, incide sobre ti mesmo o holofote da tua atenção. Observa o teu corpo, deixa-te embrenhar no éter da tua consciência, escuta o sibilar do pensamento, e deixa formar-se em ti a certeza de que existes. Mergulha nas profundezas do teu ser, palpa a consistência da tua humanidade, sacia a sua sofreguidão com a seiva que brota do solo da tua raça e que alimenta as raízes do teu povo. Saboreia-a, nota-lhe o travo férreo do sangue derramado em todas as batalhas travadas, o amargo fel das derrotas e o adocicado sabor da vitória. Agora, deixa a seiva seguir o seu curso, deixa-a perfurmar-te com o odor salgado que dela exala, sabes que estão nela todas as lágrimas derramadas, todas as gotas de suor expelidas, todos os grãos de sal de todos os mares navegados. Não regresses ainda à tona, escuta o fervilhar de cada entranha, os tambores que anunciam cada batimento cardíaco, escuta a voz de cada poeta, alcança o extâse com cada palavra proferida, embala-te com o dedilhar das guitarras a cada fôlego, com o fado cantado pelo fluir, nas tuas veias, do líquido carmim que te dá vida. Sabes quem és, sabes de onde vens, consegues ouvir, em cada sílaba por ti pronunciada, o suspiro das folhas acariciadas pela brisa, os furiosos rugidos do oceano a cada investida violenta sobre o frágil areal, a doce voz de quem por ti olhou enquanto criança, os sinos de cada aldeia, o gargalhar inocente de cada criança, os sábios conselhos dados por vozes já cansadas. Tudo isto faz parte de quem és, não só as tuas próprias experiências, não só as memórias que, ao longo da tua vivência, foste guardando, mas também todo o teu povo e a tua Nação tecem, no longo manto da tua existência, as suas malhas de História.
Imagina, então, que todo o passado se desvanesce, que nada sabes além de que, neste momento, existes e que, até isto, te suscita dúvidas, pois não és nada mais que um grão de existência perdido num oceano de nada, navegando somente para onde a corrente de te conduz, uma vez que não sabes sequer para onde te podes dirigir. O desconhecimento inebria os teus sentidos, tolda-te a visão, faz-te perder o rumo, não sabes qual o caminho trilhado no tempo e no espaço e, assim, cada passo é dado a medo (se conseguires saber sequer o que é senti-lo), cada avanço tanto te pode conduzir ao mais maravilhoso dos paraísos como ao mais profundo abismo, tudo é desprovido de intencionalidade, de Razão, tudo é obra do Acaso. Imagina um mundo assim e, agora, responde-me, seria isto existir, seria isto ser completamente? Será que alguma vez poderíamos considerar-nos humanos numa quase-realidade em que todas as faculdades que no-lo tornam fossem de nós arrancadas? Responde-me então a outra questão: Não é História tudo o que referi como ausente nesse universo desumano? Como seria então possível viver num mundo em que, quer assumindo a forma de um pergaminho amarelecido pelo passar dos séculos, quer de uma mirabolante fábula contada por alguém de olhos transbordantes de sapiência e de pele sulcada pelo tempo, ela não existisse? Simplesmente não seria, ou seria se considerarmos como existente o miserável ser inerte que disse que seríamos.
Citando Boris Paternak em O Doutor Jivago, “O que é a história? É o trabalhar para elucidar progressivamente o mistério da morte e vencê-la um dia”, é o amenizar da deterioração para a qual todo o ser tende, é o estimular do espírito, o aguçar da consciência. É o evitar a putrefacção da existência, é o manter acordada a consciência do passado, a percepção do presente e a constante tentativa de antevisão do futuro. É, de facto, vencer a morte, impedir que, qual sudário, se feche a cortina da Humanidade, é o remar contra o irreversível fluxo do tempo, é o manter-se à tona num mar de ignorância, é o extrapolar as barreiras da efemeridade da vida humana, é o continuar-se vivo, mesmo quando já cravaram em nossa carne os vermes as suas presas. Para mim, História é tudo isto e muito mais, a sua importância é algo de incomensurável, transcende a minha capacidade de expressão verbal, resvala o infinito, muito para lá dos limites do meu pensamento.
Porém, quem sou eu para reflectir acerca da História, quem sou eu para ousar escrever acerca da eternidade? “O homem que fala da eternidade, é como o cego que fala da luz” ( São Gregório, Textos Cristãos) e, como tal, também o é o Homem que tenta falar acerca da História. Posso, contudo, afirmar que, muito embora sendo a eternidade para mim o mesmo que é para um cego a luz, almejo alcançá-la, mais do que qualquer outra coisa nesta vida. Aterroriza-me pensar que, eu perecendo, qualquer traço da minha passagem terrena rapidamente será apagado como se eu não tivesse nunca existido. Mais do que tudo, assusta-me a frágil e fina consistência da existência, temo a pequenez a que estou confinada, sei que não sou mais que uma trémula e bruxuleante chama de uma vela que, à mais leve brisa, se extinguirá e, por isso, minha alma sofre, pois quão mais a minha Razão se convence de que disso nunca passarei, maior a sua ânsia de ser maior. Assim, agiganta-se a sua voracidade, minhas acções, muitas vezes atrofiadas pela inércia, não conseguem alimentá-la e, portanto, vai-me consumindo aos poucos, devorando o ser que a aloja, culpando-o da sua própria incapacidade de controlo, punindo-o por não conseguir dar resposta às suas necessidades, condenando-o por não encontrar o fôlego necessário à escolha de um rumo.
Assim, embora o meu desejo seja tão grande como a própria grandiosidade que ambiciono alcançar, tudo parece indicar que nunca conseguirei deixar as minhas marcas, não possuo o génio, nem a habilidade, nem a perspicácia, nem a astúcia, nem tão pouco (passando a relatividade do conceito) a sorte que tal feito exímio exige. Ou seja, nada em mim é excepcional, nada me torna diferente de qualquer uma das pessoas que, na calçada, a meu lado caminha, não sou melhor nem sequer pior do que a rapariga que, pela manhã, me serve o café, não há em mim uma única característica que me destaque do mendigo que, na estação do comboio, me estende a sua mão suplicantemente cravejada de sujidade. Nada em mim é especial, nada em mim é digno de ser lembrado, tendem para o insignificante todas as minhas acções e, assim, são cada vez mais trémulos os meus passos, cada vez mais incertas as minhas investidas sobre o muro que se ergue entre o limiar da realidade e o começo da utopia.
Qual é, então, a minha vocação? Nem eu o sei, já o soube, outrora, mas o desânimo oriundo da frustração constante dos meus anseios fá-los dissipar-se cada vez mais. Consome-me, em crescendo, o cansaço, dói-me cada átomo do ser, dilacera-me cada músculo que movo, pois agoniza-me a possibilidade de ser vão o seu movimento, sofro por todos os erros não cometidos, choro cada escolha errada que não tomei, vacilo de exaustão, tento renunciar ao pensamento, que não faz senão tornar cada vez mais sedutora a inércia. Porém, se é o pensar que ameaça tornar miserável a minha existência, é também ele que, de quando em quando, acende em mim uma centelha de esperança, é ele que me permite continuar a sonhar, ou seja, é ele que me destrói e, contudo, é também ele que me permite conservar unido o corpo que me alberga e que, muitas vezes, ameaçam desintegrar-se. É a reflexão que me permite tomar consciência de que me doem até as cicatrizes que ainda não me marcam, mas é também ela que me relembra tudo o que ainda há para descobrir, tudo o que posso ainda fazer, é ela que me recorda que não sou diferente de todo o mundo e que, simultaneamente, faz brotar em mim o sentido da minha unicidade.
A minha vocação é, portanto, “ser”, e sê-lo da melhor forma possível, exacerbando tudo o que há em mim de potencial, tudo o que há em mim de iminente e, sobretudo, conseguir manter em mim a alma que tende a escapar-se. Assim, penso que a minha vocação, o meu futuro, será decidido pelas escolhas que vou tomando, pelos trilhos que vou travando. Sei que o caminho é íngreme, sei que serão mais que muitas as quedas, sei que serei tentada a desistir, a deixar morrer as minhas incertas ambições, sei que serão cada vez mais aparentemente intransponíveis os obstáculos, mas sei também que possuo ainda braços para me reerguer cada vez que no chão me prostrar, sei que haverá sempre uma folha de papel pronta a servir de receptáculo das minhas mágoas e sei também que o meu pescoço tem ainda força suficiente para me manter de cabeça erguida. Amaldiçoarei as injustiças, gemerei de dor por cada pena de minhas asas arrancada e, contudo, sei que, ainda que não tão alto como o poderiam ter feito inicialmente, continuarei a conseguir voar. Bem sei que o meu raciocínio pode parecer incoerente, conspurcado de paradoxos, mas não o é também a vida? Não é ela tão repleta de incoerências e contrariedades? Ora bem, também eu o sou.
Deste modo, continuarei a deixar-me levar para onde as minhas expectativas me conduzirem, continuarei a falhar e a ser consumida pelo temor de o fazer, continuarei a relembrar o passado, a ser consumida pela angústia de tudo o que poderia ter sido diferente, a chorar cada acto de que me arrependo, continuarei a recordar, nostalgicamente, todos os irrepetíveis bons momentos, continuarei a viver presa a todas as escolhas irreversíveis que tomei, continuarei eternamente à espera de um futuro que sei nunca chegar, continuarei saudosista em relação a tudo o que ainda está por vir, continuarei a fazer aquilo que todos fazem mas que poucos admitem, a viver menos no agora do que no que já foi e do que no que ainda será.
O que quero eu, então, fazer de mim? Bem, penso já o ter dito nos parágrafos anteriores, há uns séculos talvez pudesse ser pensadora, filósofa, poeta, pois trago no meu âmago um pouco, mas não o suficiente, de cada. Hoje, não sei. Não sei o que o mundo espera de mim, não sei sequer o que espero do mundo ou de mim mesma, talvez, um dia, o descubra.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário