terça-feira, fevereiro 15, 2011

Anima Data Vermibus

Sob os pés, a cada passo, estalam
Carcaças carcomidas, decepadas.
Lá longe, suas cabeças arregalam
Os olhos cujas cortinas foram rasgadas.

Rangem os cadáveres esventrados
Pela nudez de sua carne exposta,
Pelo fel que os sufoca nos pecados
Não cometidos.Ansiavam o Paraíso, malogrados
Receberam o Purgatório como resposta.

"Louvemos ao Senhor
Tomemos sua carne sagrada!"-
-Diziam. Agora piso eu, com horror
as vísceras que escorrem pela estrada.

Nem os que em nada criam
faltaram à parada.
Lambem os beiços e deliciam
-Se os vermes que os comem à dentada.

E línguas de sangue embebidas
Pendem dos lábios gretados,
Gorgolham gargantas divididas,
Pescoços por imundas unhas arranhados,
Onde as carótidas rompidas
Espirram jorros encarnados.

Convulsiona-se um dos corpos, contrai-
-Se em macabra dança,
Rompe-se a pele podre e dele sai,
Coagulada, uma criança.

Arrastando um sorriso de farsante
Nas feições que tão bem conheço,
Aproxima-se saltitante,
Sem vestuário ou adereço.

Num abraço apertado,
Assim me mata a criança,
Enforca-me no meu passado,
Apunhala-me com vã esperança.

Se havia custado o asco,
Foi a saudade que mais doeu,
Ao ver que o meu carrasco
E as carcaças eram Eu.

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