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Um feixe de luz encontrou caminho por entre as persianas entreabertas e, sem pedir permissão, invadiu a divisão, fazendo uma nuvem de pó cintilar. Imparável, atravessou todo o quarto indo incidir sobre as suas pálpebras cerradas ornamentadas por longas e espessas pestanas. Os seus olhos, que já antes revelavam algum movimento, talvez despoletado por um qualquer sonho, rodaram nas órbitas com maior intensidade, as pálpebras pálidas tremeram e, por fim, abriram-se, expondo os seus olhos claros à fraca, e contudo parecendo-lhe tão intensa, luminosidade matutina.
Estava, definitiva e irremediavelmente, acordada o que, estranhamente, não lhe agradava. Pelo contrário, a percepção de que o sono havia findado agonizava-a e, contudo, não sabia porquê. Ergueu o tronco e encostou-se à cabeceira da cama. Estava lavada em suor. Sabia que sonhara com algo, algo que a fizera lutar desesperadamente contra o despertar, algo que agora, desperta, a afogava numa ânsia de voltar a adormecer, algo, algo, algo... de que não conseguia lembrar-se. Uma face, uma cidade, detalhes difusos que ela tentava não esquecer, tentando, simultaneamente, fazer com que a fizessem recordar, mas era em vão. Quanto mais ela tentava lembrar-se, mais os pormenores se tornavam distantes, frágeis, escoando por entre os fragmentos de memória. Por fim, nada restava, nem essas imagens dispersas, somente aquela mesma sensação de vazio, agonia que ela não conseguia explicar.
De repente, um movimento a seu lado fê-la emergir dos seus pensamentos. Não estava sozinha.
(Continua)
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