quinta-feira, junho 04, 2009

Desabafo

A minha inspiração que já de si nunca foi muita parece ter-se escondido algures onde eu não consigo encontrar, ou talvez esteja aqui mesmo ao lado, à distância de um dedo, esquivando-se de todas as minhas investidas que, por meros milímetros, se tornam vãs. Tenho ideias, mil e um assuntos fervilhando no meu cérebro, ansiando pelo momento em que deixem de ser somente pensamentos, tomando forma, corpo e alma no papel, desejando avidamente quebrar as amarras que os prendem ao estatuto de imagens mentais, simples, efémeras, difusas, lembranças de algo que ainda está para acontecer, para que possam, por fim, "existir", ganhar contornos que os façam ser aquilo para o qual estão predestinados e que,porém, ainda não são e até saber qual a o princípio e o fim que lhes imporei. E eu, eu partilho dos seus desejos, são comuns nossas ansiedades e, contudo, sinto-me fraquejar, falta ao meu cérebro o ímpeto de colocá-los em palavras, a rigidez necessária para os dotar de coerência, o meu coração, cansado, arrogante, não consegue mais construir-lhes o núcleo, alimentá-los de emoções, saciar a sua sede de sentimentos e, por fim, meus dedos trémulos vacilam, não conseguindo reunir forças necessárias para lhes esculpir os traços, nem tão pouco as formas. Sinto-me regredir, embrenhada num surdo e imperceptível, mas contínuo, progresso de degradação física e mental. Doem-me os músculos de cansaço, e os olhos, doem-me os dedos calejados, doem-me as feridas que já sarei, doem-me as cicatrizes que ainda não me marcam, dói-me o pescoço, já não mais posso andar de cabeça erguida, dói-me o sentir, dói-me o pensar, dói-me o vazio e a profusão de sensações, dói-me o doer, e o magoar, dói-me o que não me dói e até isto magoa. Sinto-me diletante, impotente, incapaz, mas com uma boa noite de sono isto passa.

Um comentário:

Carla Ramos disse...

E ainda diz ela que não tá com inspiração -.-" gostei do final x)