sexta-feira, novembro 18, 2011

CCCCCCCCOMBO

Lá fora, o som dos trovões E dos guinchos das crianças Que com os trovões se assustam Cá dentro, só os berros que não se ouvem E as vozes que não se calam E as lágrimas que não partem Nem vão para lado algum Lá fora, só a chuva e os motores e o céu oleoso sem estrelas, só fumo Cá dentro o fumo é mais espesso, sou cega de mim não me vejo mas só eu existo Não me oiço mas só eu falo, lá longe estão as estrelas Mas os relâmpagos e as luzes eléctricas sugam-lhe o brilho Sei-as lá, não as vejo, tal como sei estar aqui e não o sinto O saber sempre distinto de si mesmo Não sei quem sou porque me conheço em demasia Não me dou valor porque só em mim penso Quero tudo e isso custa porque falta em mim a vontade de querer. Esperam de mim aquilo que nem eu sei se quero, já aprendi que não posso ser melhor, só pior, há sempre alguém a superar, há sempre alguém mais tudo o que se é, todos são mais tudo aquilo que eu sou. Sou má? há pior! sou boa? há melhor! sou muito? há quem seja mais! sou pouco? há quem seja nada! sou pobre? aquele ali é mais miserável! sou rica? aquele outro é milionário! sou triste? há quem deixe de ser tal a tristeza? sou divertida? nao és comediante! sou estúpida? não és nenhuma porta! nada, nada em mim é só meu, nada de especial, peculiar, sou só eu e isso não me basta porque sou demasiado para ser só eu. gostava de me dividir em mais pessoas, toda a dialéctica da minha alma cessaria se pudesse seleccionar, isto cabe-te a ti, isto é para ti, tu não és assim, mas não posso, tenho isto tudo em mim e rebento de mim, rebento porque se sou uma as outras não param de me falar por dentro, se sou todas esmago-me sob o peso de mim, e, com isto tudo, nunca sou eu, sou sempre alguém que não eu porque tudo o que há em mim me abafa, asfixia. Ainda bem que ninguém lê esta porra porque já nem sei o que estou para aqui a dizer, obrigado, mas ao menos escrevo, valha-me isso. Para terminar esta expressão ridícula do ridículo em mim vou mostrar como sou inteligente (uuhhh lálá, tão inteligente que ela é) e vou fazer um c-c-c-c-c-c-c-combo de interditos discursivos: Foda-se para toda esta merda,matem-se porque o suicídio é tabu, falem de sexo mas só com pendor erótico porque pornográfico é demasiado unário, procurem a vossa identidade fora de vocês mesmos porque, habitada por uma alteridade radical, a vossa psique (palimpsesticamente surgida) não permite que a outra coincida consigo mesma ou se feche na sua própria interioridade, Derrida, querido, dás-me a volta à cabeça. Podia estar a escrever estas porras num documento qualquer do office, mas olha, agora paciência, agora vou carregar naquele botãozinho amarelo, objecto de desejo, preenche todo o ecrã mesmo sendo apenas uma parcela do mesmo. Vou vestir a minha sanidade agora, mas estou sozinha, como sempre, a máscara pode cair. 19 anos depois, perdi o interesse em mim, hora de ser outra. E para tudo ser melhor pus o meu blog todo alegre.

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