sábado, setembro 25, 2010

Jane Doe


Revolve-se a inexistente cortina
Nos fundos do auditório da inconsciência
Revolve-se e revira-se, vai abrir-se
Vai rasgar a pobre e pura inocência
Dos olhos dos que vão agora assistir
Ao espectáculo de deleitosa demência.

E ouve-se o bater ansioso
Do coração ainda quente da audiência
Ecoa, cada vez mais ruidoso,
O ar que inspira pelas imundas saliências.

Um espasmo de loucura antecipada
Percorre o público impaciente
Vislumbra-se para lá da cortina encarnada
Uma figura esquálida e doente.

E resfolgam os espectadores, excitados
Gargalham e contorcem-se nos assentos
Coçam e revolvem os cabelos molhados
Do suor de seus corpos fedorentos.

Abre-se o pano, e, na sala sombria,
Ecoa, humano, um gemido de agonia.

E este som horrendo,
Do negro palco oriundo,
Faz soar um tremendo
Aplauso do público vagabundo.

E rejubila a plateia
Quando o veludo carmim revela
Uma figura que esperneia
E geme e grita e se enleia
No farpado arame que a mazela.

E, em desespero, implora,
Sua saliva sangrenta escorrendo,
Tal como as lágrimas que chora,
Pela vida que vai vertendo.

E uiva a negra plateia,
Urros ávidos e prazerosos,
Gargalhadas de crueldade, cheias
De arrotos oleosos.

E a figura, no palco exposta,
Solta um esgar de raivosa fúria.
Cospe-a o público, em resposta,
Com sua saliva conspurcada de luxúria.

E como é fétido o odor
Que a esverdeada saliva solta,
Enoja-se a figura e, com terror,
Liberta as entranhas pela boca.

Explode de novo a plateia
Em gritos, aplausos, berros.
É tal a loucura que se abeira
Que se rasga o couro das cadeiras,
E se contorce o metal dos ferros.

De repente, um espectador
Solta-se das amarras que o prendiam,
Invade o palco e, com fervor,
Lambe as entranhas que nele jaziam.

Mais um se solta, voraz,
Cuja excitação foi incapaz
De conter, e, expondo a negra dentadura,
Acaricia-lhe o ventre, envolve-lhe a cintura.

E seus lábios podres percorrem
Cada centímetro de pele nua.
Enquanto de sua garganta escorrem
Putrefactos odores de carnes cruas.

Estremece de repulsa a figura
Que vomita, de novo, sua sanidade.
Enquanto a cruel, odiosa figura,
A possui sem piedade.

Acaba, por fim, a magnânima peça
Fecha-se a cortina, qual sudário
Todo o ruído, de repente, cessa
Toca o sino, no certo horário.

Saem dos lugares os vermes, sedentos
Do sangue ainda morno da protagonista.
Rastejam e contorcem-se pelo chão sebento
Até ao palco do restaurante, cujo prato é artista.
P.S.- Este já estava há muito em hiatus, faltava-me o alento para o acabar. Parece-me que esta ruptura com a previsibilidade, a forma impiedosa como asfixiei, durante uma semana, a monotonia, embora tenha a certeza de que, rapidamente, ela voltará a conseguir tomar fôlego, alimentaram a minha já subnutrida inspiração. Apesar de tudo, não consigo dar-lhe um título.

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