Sempre igual, imutável
Na minha constante mudança,
Julgo-me incansável
Mas até o pensar me cansa.
Tendo o nada, tudo quero,
Desejo o belo e o infinito,
Abafando, enquanto espero,
Do meu coração, o mudo grito.
E na minha espera vejo
A vida futura, já passada.
Sonho o abraço e o beijo
Mas em troca tenho o nada.
E é este nada que cansa,
Este nada que entristece,
Mais um nada de mudança
E outro nada que não se esquece.
É o nada que tudo é
E o tudo que nada tem,
A ausência de crença e fé
Neste mundo que não é
Mais que aquilo que me convém.
É o ser inacabado,
Por terminar, eternamente.
É o cruel, impiedoso Fado
Que ora me conduz ora me mente,
Aqui me falha, ali me engana,
Amparando-me, deixa cair
Meu frágil corpo de porcelana
Que, de pé, se deixa ir.
Quem me dera, oh meu Deus
Que não existes lá no alto,
Acordar, num sobressalto,
Todos, com meu "Adeus!"!
Quem me dera, a vida, a mim
Sem consciência ou pensamento,
Seria ledo viver assim,
Inconsciente de meu tormento.
Mas a lucidez é mais presente
Que o instinto em mim recluso.
A lucidez torna demente
A sobriedade que recuso.
E é mais alta a ambição
Que o meu braço estendido,
Por entre os dedos da outra mão,
Escorre, suave, o sonho perdido.
E maior que eu, minh'alma
Não cabe em mim, e foge
Com toda a esperança e toda a calma,
Com tudo aquilo que fui hoje.
O que fui ontem já não conheço,
O que sou hoje já me escapou,
O amanhã?Não sei, ou esqueço
O que vou sendo, mas nunca sou.
Vou ficando e mais, vou indo
Mas jamais fico e nunca vou,
Vou chorando e vou sorrindo,
Sempre estando, nunca estou.
Faço tudo (vou fazendo)
Mas nada completo ou terminado,
Um tudo de nada com significado,
Mas oh que etranha sorte!
Que se por uma vez eu sou, não sendo,
É quando chega a mim a morte
E, então, de facto morro, não vou morrendo.
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